» Filosofando: Critérios

Em uma conversa cinéfila com o Kau do blog Bit of Everything, ele me disse que achava legal o modo como eu atribuía as notas aos filmes que conferia. Parei para pensar a respeito e cheguei a conclusão do que é verdade: eu não atribuo a nota somente pela qualidade técnica ou roteiro ou fotografia. Tudo isso pode está maravilhoso, mas se não me envolver a ponto de me sentir dentro do filme, pra mim não vale o ingresso ou o tempo que perdi conferindo o filme. É lógico que isso não se aplica a tudo, filmes com uma qualidade inquestionável e não tão envolvente me fazem ainda assim dar uma nota boa, no entanto não me permite dizer que o filme me fez impressionar, me deixou extasiado ou pensando depois de seu término.

Um que explana bem o que estou falando – e que foi alvo de discussão entre mim e Kau – é Sangue Negro. O filme tem uma qualidade técnica inquestionável. De uma fotografia impar, uma direção firme a um roteiro forte e bem amarrado sem falar nas viscerais atuações de Daniel Day-Lewis e Paul Dano. No entanto, ele não me agrada num geral, ainda que fosse inevitável reconhecer seu brilhantismo. Não consegui ficar vidrado nos acontecimentos, ele não me fez querer esquecer tudo e todos para continuar assistindo-o, entendem? Em contrapartida, a trilogia d’O Senhor dos Anéis – que é muito chata  e longa para muitas pessoas que conheço – pra mim tem um envoltura fascinante. Sinto-me ao lado dos personagens, sentindo cada emoção deles, colaborando com cada decisão deles.

Esse foi quase que unanimidade nos comentários, Memórias de uma Gueixa. Achei o filme todo bem trabalhado, a trilha sonora bem conduzida e as atuações essenciais. No entanto, mais do que isso, achei que o filme me envolveu de maneira tal que me senti vivendo a vida das personagens e compreendendo suas dores e ilusões. Então o que mais questiono é como se pode definir se um filme é bom ou não? Porque tantos filmes significam tanto para uns e quase nada para outros? O recente 500 Dias Com Ela, é um exemplo de que ainda que a maioria ache-o maravilhoso tem quem o ache bem mediano e completamente lugar-comum. Nada escapa, nem Avatar, que pra mim foi fascinante, pra alguns poucos não comoveu tanto assim.

O que quero dizer é que procuro ver os filmes com mais sentimento do que com tecnicidade. Creio que a partir do momento que enxergar os filmes com olhos completamente críticos e deixar de lado a minha paixão pelo cinema, eu vou acabar perdendo completamente o gosto não só em conferir os longas, como também em escrever por aqui. Acho que é até por isso que prefiro viver no amadorismo, viver sob os holofotes com certeza não me faria bem e ter a obrigação de gostar ou desgostar de um filme porque a maioria crítica assim o fez definitivamente não é pra mim. Isso é fato.

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15 Respostas

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Portal Cine, Portal Cine. Portal Cine said: RT: @RobsonSaldanha: Chegou a hora de filosofar. No @PortalCine falo sobre meus critérios de avaliação: http://tinyurl.com/yfbt8fb […]

  2. Robson, eu adoro esse seus textos. Concordo com você. Eu gosto de assistir filmes em que eu possa tocar, sentir, participar das situações dos personagens, mas é indispensável que haja uma direção firme e óbvio – o que nos atrai primeiro – um roteiro inteligente e que saia da mesmice. É isso que buscamos no cinema contemporâneo, pelo menos é o que eu busco. Abraço!

    Ah, a ilustração do post não poderia ser melhor, hahaha!

  3. Cada um tem um estilo próprio para avaliar e dá nota a um filme. Parabéns pelo seu estilo, é ótimo e dá pra perceber que você realmente ama a sétima arte. Abraço!

  4. Rafael,

    Fico feliz em constatar que acha isso dos meus textos, saiba que a recíproca é mais do que verdadeira. Nós buscamos os mesmos objetivos quando o assunto é cinema então.

    Thiago,

    Seja bem vindo… obrigado e amo, de fato, a sétima arte.

    Abraços!

  5. Concordo.
    Acho que, sobretudo, cinema é uma experiência pessoal ! Não importa o quanto o filme é bem feito, isso ou aquilo. Ele pode provocar reações e reações. Sempre vai de cada um, das nossas bagagens e lembranças e sentimentos e aflições e tudo o mais.
    Cinema é pessoal ! =]

  6. Concordo plenamente com o que disse, e realmente, cada um tem o seu ponto de vista para avaliar um filme. Tem vezes que tem um filme não muito bem falado e você acaba gostando. Nós somos assim mesmo na maioria das vezes.

    Beijos! 😉

  7. Que beleza de texto, Robson! Eu sinto muita dificuldade na hora de dar a nota para um filme porque eu levo muito em consideração como a obra fez com que eu me sentisse. Mas, acabo partindo para outro método. Dividir os filmes em conceitos e encaixar a nota de acordo com cada um deles… Entretanto, muitas vezes, as pessoas não entendem como eu cheguei até aquela nota… É algo complicado, esse negócio! rssrsrsrs

  8. Como disse um dia Nelson Rodrigues “a unânimidade é burra”.

    A pluralidade de opiniões é algo natural em qualquer assunto. No caso de cinema, para gostar ou não de um filme leva-se em conta diversos fatores: emoção, história, elenco, parte técnica, etc.

    Abraço

  9. Ultimamente tenho me perguntado se é realmente válida essa ideia de dar notas para filmes. Sempre gostei de fazer isso, mas, nas últimas semanas, tenho sido muito questionado. Alguns amigos não entendem como eu posso dar a mesma nota para um filme completamente clichê como “Lado a Lado” e para outro que transborda originalidade como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Será que só um texto com uma opinião já não seria o suficiente? Acho que essa história de dar nota é uma coisa muito pessoal, onde a pessoa tem que ter um certo “feeling” para atribuir nota a um filme. E, às vezes, simplesmente as notas não podem ser explicadas por lógica.

  10. Que belo texto, em? Concordo plenamente com tudo. Se você, que é ‘macaco velho’ no mundo blogueiro e já estabaleceu parâmetros para seus filmes, e eu, que cheguei quase agora e não tinha antigamente nenhum critério para notear filmes? E essa sempre foi uma das minha maiores dúvidas, e continuaram a ser sempre. Tento tirar uma média, comparar com outros filmes e ter uma espécie de fita ‘suprema’, uma que realmente me marcou, e apartir dela eu tiro a ‘nota’ para os outros, mas nesse trabalho de comparação é muito difícil, por exemplo, comparar ‘Chicago’ (um dos meus favoritos) e ‘As Horas’ (que eu gosto muito e perdeu o Oscar para o filme de Rob, e eu acho justo?!). Eis aí uma das grandes dúvidas de todos os blogueiros.

  11. Victor,

    A pessoalidade é algo importante e fundamental Victor. E o cinema está aí para isso, no entanto é fato que nem todos enxergam dessa maneira. O que faz um Pablo Villaça da vida não gostar de 500 Dias Com Ela e gostar de Te Amarei para Sempre?

    Mayara,

    Às vezes, para nós blogueiros, fica o receio de falar mal ou bem de um filme tendo sido diferente sua impressão a cerca dele…

    Kamila,

    Obrigado pelo elogio, é sempre bom! É bem complicado mesmo atribuir notas. Inda mais quando você tá remando contra a maré…

    Hugo,

    Várias coisas são levadas em considerçaõ de fato. Mas se não houve envolvimento pra mim, não vale a pena.

    Matheus,

    É algo delicado mesmo. E entendo perfeitamente seus questionamentos… talvez não seja a coisa mais certa e um texto valha a pena, mas também às vezes você não tem pontos negativos a apontar e ainda assim não curtiu tanto o filme, se é que me entende.

    Luis,

    Obrigado pelo elogio. gostei da história do macaco-velho… hahahaha mas é um tema difícil de lidar e que às vezes muitos não entendem, nem nós mesmo não é? O negócio é ter paciência e manter o pé firma nas decisões.

    Abraços!

  12. Geralmente, filmes com grande qualidade, tanto da parte mais técnica, quanto em roteiro, direção e atuações, conseguem me envolver com mais facilidade do que filmes que não são tão bons nesses aspectos, mas têm algum tipo de apelo fácil no tema. Agora, existem filmes que conseguem se sobresair tão bem em alguns aspectos, que mesmo pecando em outros, conseguem nos conquistar. Ainda assim, mesmo o filme me conquistando e envolvendo, se ele falha em algum aspecto, ele falha, eu não consigo simplesmente não notar isso, só pondero o quanto essa falha é grave em relação aos acertos. Não creio que um crítico profissional tenha a obrigação de gostar de um filme que a maioria da crítica gostou, conheço muitos que não são assim, eles só precisam ter critérios consistentes para dizer por que gostaram ou não de um filme. Um bom filme, na minha opinião, deve ser mesmo aquele que independente do tema, nos conquista de alguma forma, nos leva pra dentro daquela história e nos convence, existem diferentes formas de se fazer isso, algumas eu admiro, outras eu abomino.

  13. Concordo absolutamente com o que disse, inclusive acredito que deva-se avaliar um filme de acordo com a intensidade que ele nos toca, e não baseado em convenções pré-estabelecidas. Afinal de contas, somos cinéfilos, apaixonados por cinema e esperamos encontrar coisas que nos agradem num filme. Também padeço de seus “problema”. Odeio filmes como “Fargo” e “A Vida dos Outros”, por exemplo, enquanto adoro longas como “A Lagoa Azul” (filme absolutamente massacrado pela crítica). É a maneira como nos toca. Simples assim.

  14. Concordo contigo.
    Cinema não tem nada de fórmula, é muito mais gosto pessoal que qualquer coisa, além de contar o seu “feeling” na hora de assistir. Ver diferentes notas de diferentes pessoas só serve pra comprovar isso. Avaliar vai além de fotografia, roteiro, direção, atuação, no fundo, o que realmente importa é o seu sentimento em relação ao filme de forma geral. Aspectos técnicos são segundo plano (pra mim). Claro que quem estuda cinema acaba avaliando estes aspectos e acaba se apegando, mesmo que de forma indireta, a estas questões. E neste ponto, acho que realmente é melhor ficar no amadorismo. Pegando teus, exemplos, adoro Sangue Negro, muito mais que Senhor dos Anéis! hahaha
    Curti teu blog, ta na minha lista já: http://cotmovies.blogspot.com/
    abraço

  15. Que legal este seu post! De fato, minhas notas tem muito a ver com a capacidade que o filme tem de me envolver dentro da história… Filmes que quase ninguém gostou eu considerei obra-prima como Anticristo… outros como Quem Quer Ser Um Milhionário em que todo mundo gostou, não consegui achar tanta graça… Acho que essa é a graça do cinema… poder discutir e enxergar pontos que às vezes passaram despercebidos e vice-versa.

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