» Analisando “Na Natureza Selvagem”

É impressionante como um filme pode te marcar tendo sido visto somente uma vez, não é? Vi Na Natureza Selvagem uma só vez e em 2008 no computador, quando fazia pouco tempo que tinha re-aberto o Portal Cine. Lembro que foi amor a primeira vista, foi um encantamento gigante por um filme que tratava de uma temática completamente diferente e fazia-nos enxergar fatos que anteriormente passavam despercebidos em nossas vidas. Precisava revê-lo. Precisava tê-lo. Comprei e na primeira oportunidade revi e não tive qualquer duvida sobre sua grandeza.

O que me satisfaz em escrever no quadro “Analisando” é justamente o fato de poder falar com paixão mesmo, com muito amor e deixar a tecnicidade de lado. Nesse quadro me dou a liberdade de dizer somente os pontos positivos e o que me agrada e ponto final, nada mais além disso. Afinal só entram aqui os filmes que tem minha real consideração e este é um deles, óbvio. Aqui não é preciso narrar a história, já que aconselho a quem não nunca o viu que deixe de ler, porque eu conto fatos que talvez nem todos queiram saber.

São várias as coisas e acontecimentos que me chamaram a atenção nesta revisão. Achei interessante e curioso o fato de que nos primeiros minutos do longa não entra em evidência o rosto do protagonista Christopher McCandless (Emile Hirsch) sendo, na verdade, os feitos e palavras mais essenciais e vindos em primeiro plano. Depois de apresentá-lo sob esses aspectos é que é mostrado seu rosto. Tais apresentações mostram-nos o real sentimento do protagonista com sua vida e com sua trilha, e ainda mais, permite-nos compreender que ele quer viver longe de tudo e de todos para tentar compreender-se e viver “sem continuar a ser envenenado pela civilização”.

Algumas considerações claras sobre Chris (que posteriormente adota o codinome de Alexander Supertrump). Devido a vários acontecimentos ele encara sua vida como uma grande mentira, uma hipocrisia principalmente no quesito instituição familiar além do que ele enxerga a maldade no ser humano, mais do que qualquer outra característica. Suas impressões têm total caráter filosófico e enfrenta tudo como uma espécie de filosofia de vida, das ondas que quebram no mar ao dinheiro que torna o homem cauteloso demais.

O filme deixa tudo mais dinâmico repartindo-o da mesma maneira que Alex procurava fazer ao retratar seus momentos, através de atos e capítulos. Classificando sua vida pós-faculdade como nascimento, adolescência, idade adulta, família, tornando-se sábio, assim como os livros que são umas de suas paixões. Ainda há também a procura do ‘desprendimento’, e ele passa a entender que isso só será possível quando se isolar completamente, quando ficar sozinho. Por isso diz: “e agora, depois de dois anos errando, vem a última e maior aventura. A batalha culminante para matar o falso ser interior e concluir com vitória a revolução espiritual”. E ainda assim, nessa sua vida de conhecimentos e aprendizagens, ele conseguiu encontrar pessoas que tinham ideais próximos aos seus sendo que não totalmente desligados do dinheiro.

As impressões que sua irmã tem dele são fundamentais para procurarmos entender um pouco mais do complexo personagem que ainda assim era pouco conhecido pela própria irmã. Seus pais, sempre protagonistas de cenas de briga e discussões fortes, sofreram muito com o seu ‘desaparecimento’ e em função dessas circunstâncias se aproximaram mais do que acreditavam ser possível e sua irmã comenta: “lembro que ele não cresceu com esses pais, amaciados pela reflexão forçada que vem com a perda”.

Porém após chegar ao seu destino final, Chris/Alex acabou enxergando que nem tudo são flores e que nem sempre os seus ideais são os suficientes para fazê-los viver, como seus atentamentos para a diminuição do arroz, o seu emagrecimento e o sumiço dos animais à sua volta.  Depois que percebe que tem necessidade de viver e socializar seus sentimentos, ele se vê ilhado num lugar onde a natureza não mais contribui para a sua revolução espiritual.  E daí em diante nota que no início tudo era perfeitamente aceitável, ele se considerava sozinho, não solitário. Ele se considerava feliz, não apavorado. Sendo que tem uma hora que tudo cai por terra e a realidade fala mais forte.

Seus momentos mais drásticos são também os mais ferinos. Sua transformação, seu emagrecimento é ao mesmo tempo chocante e fantástico. A maneira como Emile Hirsch vestiu-se do personagem foi algo digno de louvor por que sua dedicação foi ímpar. Chegando, inclusive a perder 18 quilos para compor o personagem no fim de sua vida. Não só sua atuação como a de Hal Holbrook são exemplos de que tudo vale a pena na fita.  A trilha sonora de Eddie Vedder é completamente conectada com o filme do início ao fim e ainda corroboram com clareza com os princípios de Chris.

O fato é que o filme nos toca por ter personalidade e fugir do lugar-comum com bastante propriedade. Com uma fotografia precisa e sensível, Na Natureza Selvagem nos permite compreender que o seu protagonista é bem mais complexo do que acreditamos e que ele também entende ser passível de erros a ponto de declarar ao fim de sua vida que “A felicidade só é real quando acompanhada”. No entanto o que deixo como reflexão ao final deste texto, é o que declara sua irmã durante o longa e que exprime de maneira acertada o real sentimento do personagem a cerca das pessoas em sua volta e de si mesmo: “Chris avaliava a si mesmo e as pessoas ao redor com um código moral tremendamente rigoroso”.

13 Respostas

  1. não tenho receio em dizer que este filme é uma OBRA-PRIMA. tão poético, tão belo e trágico como o protagonista.

    um dos meus filmes preferidos de sempre.

  2. Também sou grande amante desse filme (quem não é, afinal?!) Acho que ele trata de um tema tão difícil de uma forma tão sutil e verdadeira – mérito do diretor e de Hirsch – que é impossível terminar de assistir e não sentir alguma coisas diferente. Adoro as passagens que você comentou e a trilha sonora é simplesmente perfeita.

  3. Ótimo filme. O melhor de Sean Penn até o momento. Quero muito comprá-lo em DVD.
    =]

  4. Muito bom. Óptima realização, com planos de primeira de Sean Penn. Hirsch dá uma dimensão extra a esta história que tem tanto de bela como de trágica. E aquela banda sonora do Eddie Vedder é do melhor.

    Abraço.

  5. Desconheço alguém que não tenha gostado de assistir Na Natureza Selvagem… Mérito para todo o conjunto da obra…desde o diretor até a trilha sonora que é ótima…. Sem sombras de dúvidas que Na Natureza Selvagem é um dos meus filmes prediletos.

  6. Eu amo profundamente este filme, porque eu acho que, apesar de não ter a coragem que Chris teve, admiro muito a decisão que ele tomou, a vida pura que ele levou e o desprendimento dele. A jornada solitária dele só o fez valorizar aquilo que ele deixou para trás e as pessoas importantes da vida dele. Isso é bonito!

  7. Gostei do Blog. Quer fazer uma parceria? Olha o meu, sobre cinema também.

    http://cineclube01.blogspot.com/

    Abrs

    (se aceitar, mande uma confirmação por comentário)

  8. Alexander Supertramp Loser.Queria ir pro Alaska e se lascou.

  9. Robson, muito interessante sua analise, – é engraçado ver que esse filme parece bem pessoal pra muitos e muitos, que conseguem refletir a respeito de muita coisa!

    Abraço!

  10. Texto apaixonado sobre um filmaço! Li até o livro, de tanto que fiquei hipnitizado pela força da história e pelo furor do personagem. Lindo, lindo, lindo.

    Nota 9.0 [*****]

    E Sonia, vai caçar louça pra lavar!

  11. Filmaço mesmo! Identifiquei-me fácil com a história do Chris e também pelos motivos dele ter decidido fazer a sua “aventura”. Sean Penn fez um belo trabalho nesta película.

    Sonia, honey, vai catar coquinho!!!!!

  12. Inicialmente quero saber aonde tu aprendeu a escrever tão bem.

    E agora sobre o filme, já vi várias obras-primas da sétima arte, algumas complexas, mas cansativas e outras simples e entorpecentes. Como neste caso, uma história simples e diferente, que comprova o princípio filosófico de que a simplicidade é a essência da sabedoria.

    Poucas vezes foram vistas uma harmonia tão grande entre fotografia, ator, música e roteiro.

    E só para terminar: algo que também me chamou a atenção foi a dor da despedida. As pessoas tinham o prazer em conviver com o Alex e depois angustiavam um despedida eterna. E outro foi o respeito com Deus que o firmou, algo não tão visto em Holywood.

    Parabéns pela análise, não só por este mas por todas as outras.

    Esse blog é show, as pessoas que eu mostro e que realmente entendem gostam bastante!

  13. ainda não vi.
    mas é um dos filmes da minha lista para baixar este ano!

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