» Ilha do Medo

(Nota: 9,0)
Título Original: Shutter Island
Gênero: Drama
Diretor(es): Martin Scorsese
Roteiristas: Laeta Kalogridis, Dennis Lehane.
Ano de Lançamento: 2010.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas.
Duração: 138 minutos.

É gratificante saber que existem grandes diretores, capazes de transformar simples idéias em um longa maravilhoso, digno de impressão e também capaz de nos deixar comentando a respeitando por dias a fio. Não importa de onde vem a fonte, basta que saia de um roteirista talentoso ou de um livro badalado, o simples fato de pegar ‘aquilo’ e conseguir construir visualmente tudo, já se é merecedor de uma salva de palmas. Porém, da mesma forma que tem talentosos diretores que conseguem consagrar-se por tais feitos, tem também os fracos que nadam, nadam e morrem na praia. Ainda bem que esse não é o caso de Martin Scorcese.

Teddy Daniels (Leonardo DiCaprioA Origem) é um jovem policial que está investigando o suposto desaparecimento de uma paciente do Shutter Island Ashecliffe Hospital, em Boston. Uma ilha onde ficam os prisioneiros com problemas mentais, onde também é praticamente impossível fugir. Lá, ele também descobre que o método utilizado pelos médicos nem sempre são legais e éticos e visam tratamento experimental nos pacientes. Juntamente com o também policial Chuck Aule (Mark Ruffalo – Ensaio Sobre a Cegueira), ele sofre resistência da equipe médica para sua inquirição e a situação fica mais caótica quando um furacão passa pela ilha, soltando vários prisioneiros.

Eu gosto de filmes inteligentes. Acho atraentes aquelas fitas que nos fazem pensar, pensar e pensar e ainda assim nem sempre conseguirmos chegar a uma resposta concreta. E o que é interessante é que gosto disso porque a carência de resposta concreta nos faz ver que várias possibilidades são aceitas e que uma situação desbanca a teoria do outro e assim sucessivamente. É basicamente isso que acontece com este longa. Quando acabou o filme, observei que mil e uma teorias foram boladas pelas pessoas que saiam atônitas do filme longo e enérgico.

O que faz um filme ser bom é precisamente isso, a conversa pós-filme, aquilo que permite tentar entender mais o que se passou na grande tela. E Ilha do Medo consegue atingir esse objetivo à custa de uma direção impecável do mestre Scorcese assim como uma boa sintonia nas atuações entre DiCaprio e Ruffalo. O bom rendimento ainda fica por conta da fotografia que tem um caráter bem Scorcese de filmagem e também pela montagem que é um fator extremamente essencial na captura da história que é bem original e intrigante. Absolutamente, este filme não é pra ser visto só uma vez, não mesmo.

» A Origem

(Nota: 10,0)
Título Original: Inception
Gênero: Ficção Científica
Diretor(es): Christopher Nolan
Roteiristas: Christopher Nolan.
Ano de Lançamento: 2010.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Ken Watanabe, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine , Lukas Haas, Tohoru Masamune, Talulah Riley, Dileep Rao.
Duração: 148 minutos.

Quando eu era menor e que sabia que alguém aqui de cada ia jogar na mega-sena, projetava minha vida de como seria depois de ganhar na loteria. Pensava e passava a acreditar em tudo que aquilo podia me proporcionar, e então transformava o que era um sonho em vida real e era essa projeção que eu encarava minha vida dali para frente, com casa grande, ter tudo o que desejava, parar de estudar – lógico – e tudo o mais, era como se fosse realidade, porém quando não ganhávamos aquilo caia por terra e eu tinha que conviver com a minha realidade, que não era a que eu realmente desejava depois de achar que podia ser milionário. Logo me lembrei desse pequeno detalhe de minha inocente infância, quando conferi este filme e mais tarde vocês entenderão o porquê.

O mundo não é igual ao que muitos acreditam ser. Nele, é possível invadir os sonhos das pessoas e de dentro deles roubar os segredos mais profundos, guardados no subconsciente delas. Cobb (Leonardo DiCaprio – Foi Apenas Um Sonho) e seu colega Arthur (Joseph Gordon-Levitt – 500 Dias Com Ela), são mestres em roubar essas informações e numa frustrada tentativa de roubo nos sonhos de Saito (Ken WatanabeMemórias de uma Gueixa), estes acabam recebendo a proposta de agirem de forma inversa, fazendo uma inserção ao invés da extração. Assim, terão que fazer o bilionário Richard Fischer (Cillian Murphy) se convencer a dividir o império que seu pai criou com se fosse uma ideia propria e para isso contarão com a ajuda de Ariadne (Ellen Page), Eames (Tom Hardy) e Yusef (Dileep Rao – Avatar). Porém, do subconsciente de Cobb ainda há uma lembrança que o persegue, a de sua mulher Mal (Marion Cotillard –  Inimigos Públicos) que faz o inverso de todos os seus planos e isso nem sempre pode acabar bem.

É complexo falar de um filme em que várias emoções se fundem numa só, mas que ao mesmo tempo consegue invadir as nossas expressões faciais de acordo com cada segundo de pura ação – ou suspense – que passa na nossa frente. É complexo também falar de uma película que sabe manipular perfeitamente bem os pensamentos das pessoas e que não necessita ter que mastigar sua história – não tão simples – para o espectador a todo momento  e que tem total segurança de que, ainda assim, é possível que todos compreendam. Acredito que, antes de tudo, formar uma história que trabalhe com argumentos sólidos e, ao mesmo tempo, surreais não se pode ser feita do dia para noite.

Como se não bastasse ainda ter que repassá-la para um roteiro que não se é permitido falhar para que haja total compreensão de quem confere, juntamente com o fato de reparti-la com uma equipe de diretores de arte, montagem, efeitos, para que assim seja possível sair nos conformes e tal sintonia fazer do filme um sucesso, o sucesso que de fato está acontecendo e que não é em vão, devido sua enorme capacidade de conquistar o espectador sem pedir muito em troca, somente o essencial – para qualquer filme – que é a atenção. Por exemplo, como no caso dos espelhos que Ariadne projeta em sua primeira ‘aventura’ nos sonhos, no qual mostra que posteriormente enfrentaremos uma ‘realidade’ dentro da outra.

Como a total competência na hora de montar um longa que tem um roteiro primoroso, entretanto que deve contar com uma montagem digna, caso contrário descontruiria toda a imponência do roteiro. Quando comentei sobre eu, quando criança, ter criado uma realidade para algo que todos sonham, disse por que pude ver que isso é totalmente possível no mundo de Inception e que muitos dos personagens não conseguiam mais encarar a realidade como, de fato, a realidade. Contudo, ao mesmo tempo fica o questionamento se aquilo que se vive é mesmo a realidade, se não seria algo paralelo, em que se acredita ser verdade. Aí vem a questão do totem que mostra que aquilo é realidade – ou não – e também vem uma dúvida sobre a possibilidade real daquele totem ser detentor de uma possível realidade.

Resumindo, gostaria de dizer que para a dúvida que surgir, alguém pode tentar argumentar de outra forma, no entanto é possível desestruturar o argumento do outro com outra possível dúvida. O que se pergunta, então, é se Christopher Nolan pretende somente deixar a dúvida plantada na nossa cabeça, porém entendo que ele quer que essas discussões existam e que haja pertinência nos questionamentos a serem feitos. Assim, é que cada momento do filme há uma resposta no cantinho, onde somente na segunda, terceira, quarta vez é que enxergaremos, ou em alguns casos logo na primeira. Portanto esse, definitivamente, não é um longa para se ver uma só vez, a cada revisão tenha a certeza de que é possível enxergar mais. Seu ingresso jamais será em vão, seja a primeira, segunda ou terceira sessão.