:: A Mente de Tarantino

Até pouco tempo eu era pouco conhecedor da obra de Quentin Tarantino. Sempre me senti em falta com isso, mas recentemente comecei a destrinchar suas obras e fiquei cada vez mais fã do cara. Ele consegue fazer um cinema completamente diferente dos demais, sem se tornar enfadonho e muito menos sem se vender para as indústrias bilionárias do cinema. Ele sabe fazer um filme arte, contudo que seja apreciado por todos, isso, pra mim, é coisa de gênio.

Naturalmente, ele consegue fãs por todo o mundo a cada filme seu que é reprisado. Aqui no Brasil, um de seus maiores fãs é ator e vem se aventurando como diretor que é Selton Mello. Junto com o cantor e ator Seu Jorge, foi produzido um curta em 2006 no qual ambos atuam e o personagem de Selton Mello diz que decifrou o código de Tarantino. Assim, ele passa a contar alguns momentos, situações e personagens dos filmes que estão intrinsecamente ligados, mas que podem passar despercebidos a mente do espectador. Além de um roteiro genial e inteligente, é muito divertido. Confira:

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≈ Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar ≈

de Woody Allen (1972)

É curioso que ainda nos dias de hoje ainda existam muitas e muitas pessoas que morrem de vergonha de falar sobre sexo. Acham que a intimidade tem que ser muito grande para que isso por ser comentado, porém muitos também já transpuseram essa barreira e falam com uma maior simplicidade possível. Em 1972, Woody Allen já tinha o atrevimento de tratar abertamente sobre isso no cinema e melhor ainda, dizer logo no título de seu filme que muitas pessoas gostariam de saber algumas coisas sexuais, contudo sempre tiveram medo, ou receio, de perguntar. É um título enorme, todavia auto-explicativo (também, se não fosse, né?).

Tudo Que Você Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar é uma tentativa, no mínimo curiosa, de Allen em desmitificar algumas dúvidas que muitos indivíduos ‘poderiam’ ter em relação ao sexo. Dessa forma ele se utiliza de histórias diferentes que tentam responder as devidas interrogações que são feitas no início de cada quadro. Algumas são boas histórias que tratam sobre assuntos realmente convenientes e conseguem nos tirar boas gargalhadas, no entanto a maioria é verdadeiramente fraca e não acrescenta nada que nós não saibamos, pelo menos nos dias de hoje. Talvez na época do lançamento tenha feito um sucesso mais aceitável, já que estamos falando de quase 40 anos atrás.

≈ A Rosa Púrpura do Cairo ≈

de Woody Allen (1985)

Não tem jeito, o cinema quando pega uma pessoa de jeito, é paixão na certa. E isso é um fenômeno mundial que permite aos espectadores entrar na história que está a sua frente e desfrutar dela da melhor maneira possível, seja sorrindo com o protagonista ou compartilhando o sofrimento dele. Woody Allen, na sua extensa filmografia, tem um momento de pura homenagem à sétima arte, ele mistura seu roteiro, sempre muito inteligente e sagaz, com uma clara e bonita homenagem aqueles que são apaixonados pelo cinema, aliando-se a ficção para dar um gostinho próprio a trama.

Assim, A Rosa Púrpura do Cairo é um lindo tributo ao cinema. Allen realmente estava muito inspirado ao escrever e dirigir este longa que consegue envolver seu espectador completamente sem soar algo forçoso ou desnecessário. O simples ato de o personagem sair da tela, reconhecer o cinéfilo e daí em diante desenvolver uma história em torno disso é algo fabuloso e o mais curioso é que os demais personagens não vêem aquilo como normal, enxergam algo atípico, deixando, de certa forma, o longa mais real ainda. Isso porque todo cinéfilo que se preze, como Cecilia (Mia Farrow – Crimes e Pecados), tem seus sonhos com os filmes, situações e estrelas de cinema. Personificar isso numa película é melhor ainda. Obrigatório para todo e qualquer cinéfilo.

Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello

Roteiro: Woody Allen

(Nota: 9,5)

≈ Enterrado Vivo ≈

de Rodrigo Cortés (2010)

Continuo acreditando que é realmente muito difícil fazer um filme com vários personagens em um só ambiente, como o mestre Sidney Lumet conseguiu com tamanha facilidade em seu primeiro filme 12 Homens e Uma Sentença. Dito isso, acredito ser mais difícil ainda conseguir fazer isso com um só personagem e, pior, dentro de um caixão. Logo, pensei que o resultado final não poderia ser satisfatório, deveria ser um filme entediante ao extremo. Porém, Enterrado Vivo conseguiu combater todo e qualquer pré-conceito meu em torno do formato do filme, assim como Danny Boyle conseguiu tal feito em 127 Horas. Visto que o filme tem uma tamanha dinamicidade que, até que você comece a entrar no clima, é difícil de acreditar que existe.

O diretor Rodrigo Cortés, aliado ao criativo e bem articulado roteirista Chris Sparling, procura trabalhar com a angústia do início ao fim da película, sem a menor piedade do que você vai sentir ao longo do filme. Assim, seus 90 minutos são de completa ansiedade pelo que se passa com o protagonista, e o roteiro permite uma rapidez que falta a muitos filmes com outros cenários que não um caixão e que, por isso, deixa o espectador completamente sem fôlego em determinados momentos. A atuação de Ryan Reynolds (A Proposta) é fundamental para que o longa tivesse um funcionamento eficiente também. Sem contar na trilha sonora que não é omissa e acompanha o ritmo do roteiro.

Elenco: Ryan Reynolds, José Luis García Pérez, Robert Paterson

Roteiro: Chris Sparling

(Nota: 8,5)

≈ Megamente ≈

de Tom McGrath (2010)

Uma das maiores características de alguns desenhos (e também de alguns filmes) é justamente tratar daquele bem-mal, onde não há o bem se não houver o mal e isso sempre é o alvo do clímax da história, onde há uma forte luta entre ambos visando o bem-estar (ou mal-estar) de alguém, algum lugar, ou alguma coisa. Até certo ponto isso diverte, porém chega um momento que se não houver uma inovação suficiente para nos envolver, a história entre o bem e mal se reverte para algo cansativo e que não mais consegue atrair espectadores. A vantagem de Megamente encontra-se justamente onde não mais tinha vez para algo senso-comum.

A questão da banalização do maniqueísmo, como disse, quando bem trabalhada pode render frutos interessantes e nada melhor do que ver a luta do bem contra o mal e ao invés de esperarmos que o bem ganhe, este termina por ser derrotado pelo mal. O rumo da história já começa de forma conveniente e nos faz crer que o roteiro será o ponto forte da ‘trama’, porém, depois de um determinado momento, o roteiro começa a enfraquecer a ponto de nos fazer captar todo o resto da história. Essa falha poderia ser mais trabalhada, ao menos, com fatos mais engraçados, para animar, contudo não há tanto êxito. Porém, ainda assim, é uma animação que agrada pelo lado simpático e até convincente do protagonista, que deixa ser o antagonista. É uma boa animação-pipoca.

Elenco: Will Ferrell, Tina Fey, Brad Pitt, Jonah Hill.

Roteiro: Alan J. Schoolcraft e & Brent Simons

(Nota: 7,0)

≈ Entre os Muros da Escola ≈

de Laurent Cantet (2007)

Acho que muitos nascem com determinados dons. Um dos mais bonitos, creio, é o dom de ensinar, de passar um conhecimento para outrem de forma muito clara sem que se rodeie demais para poder passar um assunto e tudo se compreenda da melhor forma. Porém, é óbvio que não são todos que conseguem esse feito e sem dúvida alguma é de se admirar que muitos dêem sua vida em prol de uma causa que é fundamental para a construção do conhecimento, façam valer cada aluno que senta na carteira a fim (e nem sempre também) de aprender com quem aceita compartilhar o que sabe.

Essa introdução serve claramente para demonstrar que este filme, Entre os Muros da Escola, é para representar aqueles que têm não só o dom, mas que tentam lidar com todas as dificuldades que uma sala de aula pode permitir a alguém. Acho que a película muito tem a acrescentar aos da área em razão de mostrar a verdadeira formação do caráter profissional, porém como filme, a meu ver, deixa um pouco a desejar. A fotografia não é muito agradável aos olhos, a história é um pouco vazia, não me convence do que realmente importa – que seria mostrar algo convincente aos que não partilham do mesmo dom, algo que transpusesse barreiras e tocasse quem não é do meio. Sei que muitos vão jogar pedras, mas acho que tal longa vai muito de empatia e ele, definitivamente, não conseguiu tal feito comigo. Um tanto superestimado.

Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi.

Roteiro: Laurent Cantet, François Bégaudeau e Robin Campillo, baseado em livro de François Bégaudeau

(Nota: 6,5)

≈ Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles ≈

de Jonathan Liebesman (2011)

Filmes de guerra nem sempre me chamam muito a atenção. Acho que, com exceção de alguns que tratam de guerras históricas com as Grandes Guerras, películas do gênero nem sempre tem muito a acrescentar e, na verdade, não são mais do que um passa-tempo ou muitas vezes nem isso. Naturalmente, nem sempre filmes que tratam de guerra e ainda mais num aspecto de ficção científica são de me agradar, por isso costumo não criar qualquer esperança em torno desta temática, ainda que me force a vê-los vez por outra. Pensei que não, mas Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles me agradou mais do que podia imaginar.

O tema, que muitas vezes é tratado sobre a ótica civil, dessa vez tem força nas questões estratégicas de guerra e seus protagonistas são, majoritariamente, militares que precisam descobrir uma maneira de destruir aquele inimigo desconhecido que, por motivos incógnitos, ataca de forma mortal o Planeta Terra. O roteiro tem um caráter descompromissado e nos permite se envolver com os protagonistas de forma gradual e não apelativa. O que me incomoda um pouco é a fotografia, porém nada que prejudique de forma significativa o longa. Uma ficção montada numa ideia não original, todavia tratada de maneira bem arquitetada e sobre a visão dos soldados contra uma invasão alienígena.

Elenco: Aaron Eckhart, Michelle Rodriguez, Michael Peña, Bridget Moynahan..

Roteiro: Christopher Bertolini

(Nota: 8,5)