≈ A Outra ≈

de Woody Allen (1988)

A sua filmografia é bastante extensa e nós podemos conferir filmes que tratam de temáticas muito similares, porém também há alguns que acabam destoando dos demais. Assim é Woody Allen que consegue tratar de problemas de uma mulher amadurecida que questiona fatos e decisões de sua vida, como neste longa, assim como tratar de um filme que somente aborda assuntos relacionados ao sexo. Em A Outra, é possível conferirmos que a vida nem sempre é o que parece, e Marion (Gena Rowlands) começa a repensar sua vida quando aluga um apartamento para terminar de escrever seu livro, contudo é surpreendida pelas sessões de um psicanalista do apartamento ao lado no qual ela passa a ouvir confissões de seus clientes.

Tudo isso intensifica uma crise existencial adormecida na protagonista. O ar do longa é de total envolvimento com a ‘angústia’ da personagem. O que já é de costume em alguns dos filmes do diretor, a mistura entre realidade e imaginação é outro fator interessante que só adiciona à história, sem que se torne algo vazio ou deveras fantasioso. O diálogo, ou muitas vezes o ‘monólogo’, é de uma inteligência fina e bastante perspicaz quando a personagem principal faz questionamentos como este: “E me pus a pensar se uma recordação seria algo que se tem ou se perdeu”. Particularmente, gostei bem mais dessa película do que do badalado Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (nome péssimo pra um simples Annie Hall, né?), ainda que sejam temáticas um tanto diferentes.

Elenco: Gena Rowlands, Mia Farrow, Ian Holm, Blythe Danner..

Roteiro: Woody Allen

(Nota: 8,5)

≈ Vencer (Vincere) ≈

de Marco Bellocchio (2009)

Meu primeiro e único contato com o cinema italiano foi através de um dos seus maiores clássicos e que inevitavelmente qualquer cinéfilo que se preze deve assistir, pelo menos uma vez por ano, chamado Cinema Paradiso. Um filme que é uma verdadeira homenagem tanto para o cinema como um todo como também aqueles que sabem apreciá-lo da forma que for possível. Isso também prova que qualquer cinema no mundo é passível de fazer obras-primas. Assim, fui conferir o filme Vincere. Trata de um tema que muito já foi trabalhado no cinema, porém não sobre essa ótica, pois a jovem Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) se apaixona pelo militante Benito Mussolini (Filippo Timi), envolvida por uma forte paixão ela se desfaz de seus bens para ajudá-lo a criar um jornal, porém, com o advento da Primeira Grande Guerra, Benito desaparece e quando Ida o encontra, ele está com sua esposa num leito de hospital. Daí em diante começa sua luta pra o reconhecimento do filho que teve com aquele que se tornou o ditador da Itália.

Este é um filme bastante peculiar porque ele não trata como foco central o próprio Mussolini e sim a vida de sua amante. Seu maior mérito encontra na atuação visceral da talentosa Giovanna Mezzogiorno que realmente consegue nos passar uma imagem de uma mulher decidida, mas que não consegue receber crédito algum pela história que anuncia para todos, a ponto de ser considerada louca pelos demais e ainda ser perseguida pelo governo que não pretende obter um escândalo desses. O mérito está mais no roteiro que, ainda que um tanto monótono, é bem estruturado e sabe colocar de forma inteligente a história sem que seja superficial nem tampouco complicado. É hora de darmos mais chances ao cinema não-hollywoodiano, muitas pérolas existem e estão por vir.

Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi.

Roteiro: Marco Bellocchio, baseado em estória de Daniella Ceselli e Marco Bellocchio

(Nota: 8,0)

≈ Eu Matei a Minha Mãe ≈

de Xavier Dolan (2009)

O cinema carece, ultimamente, de uma renovação que ainda vem um tanto tímida e sem muita expressão. Renovação que pode e deve começar através de novos roteiristas, diretores e até mesmo produtores. Fora do meio hollywoodiano, isso já vem acontecendo e um dos nomes de maior expressão é o jovem garoto canadense Xavier Dolan, que no alto de seus 22 anos conseguiu o feito de ter lançado dois filmes em que protagoniza, roteiriza e também é diretor. Creio que isso é um grande avanço pro cinema e dá um ar mais jovial aos filmes que fazem com que os demais jovens consigam se enxergar mais na tela do cinema.

Assim, naturalmente, é gratificante poder conferir um filme feito por um jovem garoto que tem um poder de concisão e de transformação da atmosfera de um longa de forma a deixar o espectador completamente envolvido. O tema é bastante atraente e isso aumenta ainda mais o interesse. O seu simples título já nos mostra a realidade que será trabalhada na película. A fotografia nos mostra de forma muito particular o universo do jovem garoto retratado em tela que sofre de fortes conflitos com sua mãe. Seu roteiro é bastante sufocador e é de uma propriedade interessante. Sem qualquer sombra de dúvidas, Xavier Dolan é um nome que deve ser guardado, porque ele tem ainda um futuro (espero que brilhante) muito grande pela frente.

Elenco: Anne Dorval, Xavier Dolan, François Arnaud.

Roteiro: Xavier Dolan

(Nota: 8,5)

≈ O Céu de Suely ≈

de Karim Ainouz (2006)

Inúmeros são os filmes brasileiros que tratam da realidade do nosso país e muito o cinema brasileiro é criticado por isso, porém esquecem os que tanto criticam esse fato que os filmes americanos (tão idolatrados por tantos) também abordam a realidade deles, dos que vivem na pobreza e de seus dramas. Porque não podemos tratar de tal tema aqui no nosso país? É só isso que existe? Não. Contudo as diversidades de ‘dramas’ são inúmeras num país de dimensões continentais e de muitas formas podem ser exploradas. Uma delas foi utilizada de forma bastante apropriada pelo diretor Karim Aïnouz, que trata da história de Hermilla (Hermilla Guedes), uma jovem mãe que volta para a sua cidade-natal, a pequena Iguatu em Pernambuco, juntamente com seu filho à espera de namorado que ainda ficou em São Paulo.

As dificuldades imperam em sua vida mesmo voltando para a casa da sua avó, que a criou desde pequena. Aliado a tudo isso, ainda é abandonada pelo pai de seu filho e tem que arranjar uma forma de ganhar a vida nessa pequena cidade onde todos se conhecem. A história é bastante simples e não procura mascarar a realidade de alguém pobre, assim o roteiro caminha por meios interessantes e sabe traçar com bastante propriedade as amarguras da vida para alguém como Hermilla. Porém o grande mérito do longa fica por conta da própria Hermilla Guedes, protagonista do longa, que nos entrega uma mulher cheia de atitude que está disposta a fazer tudo para poder criar seu filho e também pra poder sair daquele lugar o mais rápido possível. Portanto, este não é um filme em que você encontre grandes nuances no roteiro, contudo existe a força dramática em uma história simples e que é mais corriqueira do que imaginamos.

Elenco: Hermila Guedes, Maria Menezes, Zezita Matos, João Miguel, Georgina Castro.

Roteiro: Maurício Zacharias, Felipe Bragança e Karim Aïnouz

(Nota: 8,5)

≈ Mother – A Busca Pela Verdade ≈

de Joon-ho Bong (2009)

Não é de hoje que o cinema não-hollywoodiano vem fazendo grandes filmes, de sucesso estrondoso sem que necessariamente tenham gastado o tanto que os filmes americanos gastam. Porém alguns conseguem se destacar mais do que os outros e creio que o cinema coreano é um dos grandes destaques dos últimos anos. Esse é o primeiro que vejo do país, mas com certeza ele abre portas para que eu possa ver outros. Depois de certo tempo que vi o filme foi que cheguei a conclusão, após muita ‘confusão’ no twitter, que realmente  roteiro é um dos pontos altos do longa, pois ele é parte de uma história simples porém intrigante.

Aliado ao roteiro que reconhecidamente (me retrato, então) é bastante astuto, temos uma atuação extremamente comovente e bastante visceral de Hye-ja Kim que só de lembrar já dá vontade de rever, sendo, portanto um dos grandes diferenciais de um filme que até poderia passar despercebido. Muitas vezes as palavras são deixadas de lado e somente as atitudes são observadas com certo cuidado pelo espectador, e isso é um forte atrativo da fita. Definitivamente, é um longa pra você deixar de lado qualquer preconceito besta sobre os filmes de língua não-inglesa e deleitar-se com ótimas histórias e com atuações brilhantes.

Elenco: Hye-ja Kim, Bin Won, Ku Jin, Je-mun Yun, Mi-sun Jun.

Roteiro: Eun-kyo Park, Joon-ho Bong, Wun-kyo Park.

(Nota: 8,0)

≈ Minhas Mães e Meu Pai ≈

de Lisa Cholodenko (2010)

Ultimamente o cinema, quando procura lidar com filme que tenham temática gay, está tentando renovar na forma de abordagem desse tema sem que soe algo clichê ou até mesmo preconceituoso. E Minhas Mães e Meu Pai procura, justamente inovar dentro do tema colocando como foco central um casal de lésbicas, Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne MooreEnsaio Sobre a Cegueira), que tiveram dois filhos, Joni (Mia Wasikowska – Alice no País das Maravilhas) e Laser (Josh Hutcherson), um de cada, com a ajuda de uma clínica que dispunha de um banco de espermas. Com o crescimento dos filhos, naturalmente cresce também os questionamentos e curiosidades a cerca do ‘pai’ que não conheceram. Escondida das mães, Joni consegue o número do doador, Paul (Mark Ruffalo – Ilha do Medo) e entra em contato com ele.

O roteiro baseia-se completamente em cima desse momento que a família vive, na qual os filhos conhecem o seu pai biológico e as mães têm que conviver com essa realidade escolhida por eles. Vi de forma bastante original a forma como foi abordado e acredito que o roteiro poderia ter sido um pouco mais ousado em alguns momentos e talvez por isso não tenha conseguido me encantar tanto. Assim, o que realmente consegue dar mais força à fita é o elenco que está muito bem. Porém, ainda que Benning seja a possível nomeada ao Oscar, não consigo achar que seu trabalho se sobrepõe ao de Moore, portanto se eu tivesse que indicar alguém, seria essa. No mais, não passa de um filme mediano.

Update: A vitória no Globo de Ouro 2011 em Melhor Filme Comédia ou Musical ainda assim não quer dizer grandes coisas, porque ainda que seja um filme somente bom, ele tem seus defeitos. Na verdade, foi a falta de opção que permitiu que ganhasse. Pena que num tem um 500 Dias Com Ela pra concorrer esse ano. Annete Benning tá muito bem no filme, mas como já disse Moore está muito melhor e por mim, ela tinha levado o prêmio, mas como não sou eu que decido… rs.

Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson.

Roteiro: Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg.

(Nota: 7,5)

≈ Antes do Pôr-do-Sol ≈

de Richard Linklater (2004)

Esse filme como se pode notar é, naturalmente, a continuação de Antes do Amanhecer e tem mais uma vez como foco central o encontro de Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke). Porém dessa vez os anos se passaram, ambos viveram diversas emoções e agora Jesse está em Paris para lançar seu livro que virou um sucesso e que trata justamente da história que ambos viveram quando mais jovens. Nem sempre as continuações de filmes com roteiro original não conseguem sempre ter muito êxito do que o primeiro, porém esse filme conseguiu me deixar mais fascinado ainda do que o pioneiro.

Acho que a maturidade que veio com o tempo nos atores/personagens foi suficiente pra deixar a fita mais interessante e com diálogos ainda mais inteligentes e envolventes, contudo sem aquele sonho às vezes irracional que o jovem tem de querer mudar o mundo e tudo o mais, tornando o ‘papo’ bem mais sincero. Ainda assim, não deixa de ser um belíssimo resgate aquela noite marcante que viveram há nove anos. O roteiro é mais importante ainda nesse filme, tanto que teve indicação ao Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado em 2005, porque apesar de curto tem uma sinceridade que é extremamente exuberante. E o final é o que todos gostaríamos de ver, sem dúvidas.

Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Vernon Dobtcheff, Louise Lemoine Torres, Rodolphe Pauly.

Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan.

(Nota: 9,5)