
Até este momento, eu só havia assistido a tal filme somente uma vez. E não foi preciso muito para que ele me conquistasse com sua simplicidade e com o modo diferente e ao mesmo tempo igual de se contar uma história. Procurei revê-lo para entender, por A + B, qual o real motivo desse longa fascinar a tantas pessoas, apesar de saber que nem todos encontram o fascínio nele. A história não é das mais diferentes, ela fala sobre o amor, fala sobre as pessoas, sobre os sentimentos, sobre o comportamento, sobre as atitudes. Sim. Fala sobre tudo isso através de coisas mais cotidianas do que possamos imaginar, sem a história ficar embaralhada ou confusa. Tudo em seu tempo.
Nós podemos perceber que os aspectos técnicos serão basilares desde o início, quando nota-se que a fotografia tem um propósito díspar dos demais filmes, ela vem pra marcar, para dar mais cores ao que é necessário e até mesmo paras as coisas que, em outros momentos, nos passariam despercebidas. A trilha sonora nos permite um envolvimento tal com as cenas e situações da película que se ela não estivesse presente nada faria tanto sentido quanto realmente fez. Apesar da família meio estranha, notamos que Amélie tem tudo para ser uma criança normal e essa ‘informação’ nos é passada nos créditos iniciais, onde ela faz tudo que qualquer outra criança faz ou sonharia em fazer. Um propósito conveniente e que deixa cada personagem mais próximo do espectador é a distinção que o narrador faz, dizendo o que aquele personagem gosta ou não.
Essa questão de dizer quem gosta ou não de fazer algo, não só aproxima o personagem ao espectador como também deixa o espectador entrar naquele mundo já que mais cedo ou mais tarde, ele irá se identificar com algo que alguém goste ou não de fazer. Quando pequeno, e creio que ainda hoje, eu adorava enfiar minha mão no saco de cereais ou feijão que tinha nas feiras que ia com meu pai, assim como Amélie. As perguntas idiotas que ela faz a si mesmo como a de quantos orgasmos estão havendo na cidade naquele momento, são aquelas que muitos de nós nos fazemos e não temos coragem de admitir, não acham?
O narrador procura nos levar por caminhos que acreditamos já conhecer, porém somos pegos de surpresa. Por exemplo: o momento que fala sobre a morte de Lady Di, achamos que a vida de Amélie muda por causa disso, mas na verdade é por causa da tampa que bate no tijolo fofo e que mostra a ela um buraco em que existe uma caixa posta lá mais de trinta anos atrás por um garoto. Dessa forma, Amélie encontra algo que a satisfaça da maneira que precisava, e é a partir desse momento que ela percebe o quanto é bom enxergar as reações das pessoas, por isso ela agirá de maneira diferente com todos. É possível compreender, também, que a protagonista encontra seu lado humanista, de querer fazer o bem às pessoas e descobre o quanto isso lhe faz bem.
A astúcia da personagem principal é, na verdade, o grande atrativo e diferencial que existe no filme. Caso contrário, ele seria somente mais um, sem muita expressão por que trata do cotidiano e são muitos aqueles que trataram do mesmo tema e caíram no esquecimento, por não ser feito de maneira impar, especial. As vicissitudes para entregar a caixinha ao dono já adulto e amargurado, a ajuda ao ceguinho para atravessar a rua, o encontro do cliente com sua colega de trabalho e especialmente os joguinhos para entregar o álbum de fotos ao homem que ela se apaixonou, dão a história um gosto de algo diferente e encantador.
As questões filosóficas também estão em pauta no filme, assim como o contexto psicológico. Os momentos mais claros dessa idéia são quando ela encontra-se com aquele que é intitulado como “homem de Vidro” por ter seus ossos enfraquecidos. Na discussão sobre o quadro que ele pinta e sua personagem, eles fazem questionamentos que ela termina por misturar com sua vida e com suas decisões. Ele, por frases metaforicamente bem colocadas, incute dúvidas em Amélie de maneira tal que a faz repensar sobre suas ações, como: “Quando chega a hora, precisa saltar sem hesitar” e no fim quando diz: “Você não ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida”, encorajando-a para tomar atitude e ficar com quem deseja. É um longa que merece ser visto e re-visto para que encontremos o algo a mais que ele sempre vai querer passar.